Da série Pretagógica

Hoje o postal é longo, quase um livro leiam se vos apetecer, eu quero deixar por escrito, o meu acrescento se não vos apetecer ler agora, guardem num canto, quando quiserem saber da história, voltem aqui, saibam que este não é da minha imaginação uma veleidade a realidade da verdade o conto dos meus antepassados

Preambulando 

Um dia, um fascista disse que ouvir falar em cultura lhe dava vontade de soltar a pistola. Acontece com os boçais e os parolos também. São assim de pequeninos. Querem pisar, só porque a ignorância já lhes consumiu a cognição. 

Para os acéfalos é brutalmente complicado compreender uma obra artística exposta no chão – a representação de um útero de uma nau, que carregava pessoas escravizadas, pela exclusiva razão de terem a cor de pele preta, para o comércio transatlântico de força de trabalho e de reprodução de escravos. 

Esta manifestação artística não está protegida por um cordão, e, a polícia vê e deixa as alforrecas em campanha eleitoral, com calças azuis e beijes, devassar a manifestação artística – goste-se ou não – é quase insuportável. 

No entanto as palavras no Padrão dos Descobrimentos são ofensivas? 

São os dois pesos e as duas medidas. Claramente “alguéns” não querem que se fale da outra história. Os fascistas juntam no mesmo bolo o racismo, a divisão e a descriminação, e, estão de arma em riste. 

Já perdi “amigos” que não lamento por contar a outra versão. Existem ainda pessoas que por azar meu não me desamigam, que “acham” que a minha história é um lamento estúpido porque a escravatura sempre existiu e ainda existe. Aí vem ela de novo…

Que tontos sois vós. Porque não estudais? Sem preconceitos. 

Estudai o que já está escrito. Sobre vós próprios. Irão fazer descobertas, como no tempo dos Descobrimentos de que há outras histórias. 

Que precisam ser contadas, ouvidas e sobretudo reconhecidas. 

Não querem saber? É demasiada informação e são só mentiras? Eu farei o contraditório!

Comecemos do princípio. Dois pontos parágrafo travessão: 

-Ter nascido de cor Preta foi a razão escolhida que faria distinguir gente de não gente para embarcar no ventre das naus. Esses seres inferior que eram encontrados nas navegações. 

Como um dia mais tarde a condição de ter nascido Judeu faria distinguir gente de não gente despindo e atirando para um duche fatal. 

Vou repetir um episódio das “conversas que não acabam nunca”, entre os meus ancestrais brancos e os meus ancestrais pretos.

As navegações Portuguesas

Andam aí, constantemente. Aqueles que odeiam os outros que colocam em causa a epopeia das descobriduras, por esses mares. Uns que odeiam aqueles que clamam o que também se fez com as navegações. 

Por eles andarem aí, também andarei. A fazer o contraditório. 

Andam por aí os negacionistas da história. A História que estava tão bem adormecida nos livros, enquanto cá fora o ódio se vai espalhando contra os que começaram a levantar o véu ajudados pelos ventos alísios que traz mudanças de rotas e paradigmas. 

Tem de ser, é inevitável. Não querem ouvir falar? Tapem os ouvidos, escondam-se, não leiam. 

Eles os meus antepassados vieram para falar e ser reconhecidos. Essa história pertence-lhes! 

Eu junto-me aos que contam a versão silenciada. Apenas isto. Não tenho outro objectivo nem agenda. 

Os Lusitanos – quanto orgulho tenho na minha História. Os novos mundos dados ao mundo! 

Sem dúvida um oásis de água doce em mar salgado nunca dantes navegado! 

Alguém duvida do brilhantismo do Português empreendedor da época do século XV? 

Dos estudos e das descobertas científicas feitas por um povo pobre e sem recursos, encostado entre as cordas do mar e a terra da poderosa corôa espanhola, este povo nas mãos de monarcas e padres fez financiar as suas navegações com parcerias inteligentes, por comerciantes ricos Genoveses e Venezianos numa busca incessante de domínio do mundo – leia-se riquezas – que viesse a encontrar!

Trouxe a si a glória das rotas comerciais e da expansão territorial.

Pensou “ainda além da Taprobana”. Um feito inegável, o destes barões. De um reino pequeno para a conquista do mundo! 

Uma ambição legítima, conseguida e continuada com mão amiga e respeitável? Eis a questão! 

Certamente a resposta é um redondo não!

A divergência surge quando contamos apenas uma única versão incrível das navegações feitas pelos Portugueses, elogiadas na epopeia de Camões, versão que tem sido o padrão, a única ensinada e repetida exaustivamente.

Versão pintada em tapeçaria e em tela, em cerâmica e em letras. Sem dúvida colossal. Com provas colossais sobre a sua exclusiva legitimidade. Ninguém a nega. Ninguém a deixa de reconhecer. 

Se não houvesse outra parte não contada, não reconhecida…que levou ao mundo, um mundo de gente escravizada.

As riquezas que as descobertas e a expansão territorial trouxeram às corôas e à Igreja vieram com sangue, muito sangue. Milhões de vidas humanas.

Não aconteceu à custa de trocas de tapeçarias, sedas e especiarias e coexistência pacífica com os povos encontrados, existentes nos lugares. 

Os povos encontrados não dominavam as armas de fogo nem os mares, nem eles imaginaram um dia ver os seus portos receberem grandes naus para nelas serem levados. 

-O quê? Mas isto aconteceu? Porquê?

-Já respondi! Por dinheiro. Para enriquecerem, as côroas expandirem o seu território e terem mais riqueza! 

-à custa de vidas humanas que eram exploradas sem piedade? Porquê?

-Simples, porque eram de cor de pele diferente dos povos invasores, que os descobriam. Tinham de arranjar uma justificação qualquer. 

As Descobertas, a caminho do Brasil e da Índia

Os Lusitanos construíam as naus e as caravelas nos estaleiros ali à Ribeira das Naus no Cais do Sodré e, quase sem roupa nem comida, perecendo no trajecto, atingidos por doenças e trabalho excessivo, conquistavam “mares nunca dantes navegados”, numa verdadeira e gloriosa epopeia. 

Os meus heróis buscando ter mais um pouco de terra para cultivar e moedas no bolso. 

A história agora recebe um pequeno desvio sobre um dos heróis nacionais, o inesquecível Rei D.João II (o Esfaqueador, desculpem o Príncipe Perfeito), monarca que negociou inteligentemente o Tratado de Tordesilhas (Boa rei! enganaste bem os concorrentes das descobertas, já que pela única vez na história lusitana tu possuías bons serviços de Intel) – dizia eu, fica este e bem com os louros da navegação para o Brasil e para as Índias de Cabral e Vasco da Gama respectivamente.

Este último, na viagem para a Índia encontrando-se a leste da Ilha de Santo Antão (vem de António, claro), em Cabo-Verde, viu umas aves gigantes ( o garção), que se dirigiam a terra (a posteriormente descoberta e chamada Bahia do Salvador) dando a dica a Cabral:

– “Escuta compadre (Gama era alentejano), se fizeres o desvio quando vires as aves grandes, segue-as e avistas terra”. E Pedro sabendo que podia confiar em Vasco, rumou a terra apenas avistou os garções.

Continuando com o monarca Príncipe Perfeito, tão perfeitamente maquiavélico que apunhalou com as próprias mãos o cunhado Duque de Viseu e, mandou degolar o Duque de Bragança (para reinar sem concorrência nem oposição). Um esfaqueador perfeito, príncipe e amoroso.

Sim, lembrem-se que na época não se brincava ao poder. 

Personagens para inspirar Shakespeare nas suas tragédias em cujo prefácio dever-se-ia ler “ baseado em histórias reais”.

Hoje apenas se refina o estilo de crime. Chama-se evolução. Também não se brinca ao poder. Toma-se de assalto. 

Um dia, no futuro alguém que conte as histórias. 

Lusitanos inteligentes e brilhantes sim, inocentes e boa-gente não! Gente pronta a aceitar e a misturar-se com o diferente nem pensar! Se fosse para ter sexo, aí sim! De resto, cada um no seu lugar.

Povo disposto a dividir o poder e os territórios com os povos e as civilizações que descobriam? Essa é a versão para rir. 

Novo rumo à história – O povo não decidia nada.

Os nobres e o clero tomavam as decisões. O povo trabalhava, lavava os convés e lavrara a terra e lá se misturava numas camas. 

Hoje temos uma versão mais refinada, já com umas castas diferentes, mas essencialmente igual na tomada de decisões. 

Relembratório

– A Índia antes de ser “descoberta” existia há milhares de anos como civilização próspera e desenvolvida, 

– Os Impérios Africanos (antes do Continente ser “descoberto”) existiam há milhares de anos como civilizações prósperas e desenvolvidas. 

– O Brasil – todo o Continente Sul e Norte Americano – existiam com civilizações de Índios que coexistiam já com enorme desenvolvimento.

A todos os níveis estas civilizações Africanas, Orientais e Índias eram desenvolvidas, nunca o esqueçamos. Há milhares de anos.

Não foram os Portugueses a trazer civilização. Nem os Ingleses, nem os Franceses, nem os Espanhóis, nem os Dinamarqueses, nem os Holandeses, nem os Italianos, nem os Alemães nem os Belgas. 

Mas foi entre estes que o mundo foi dividido a régua e esquadro. Em particular, as terras dos escolhidos para a escravidão, por serem de cor diferente, que eram retirados do continente africano. 

Todo o ponto da História Portuguesa da época foi feito com nó.

Só havia uma solução para não se falar na outra versão da História Portuguesa da época. Até ao 25 de Abril de 1974 foi a de criar apenas uma História. Repeti-la exaustivamente e torná-la verdadeira.

Fazer desaparecer a outra. Inferiorizando e menorizando a outra, como fizeram com os homens, mulheres e crianças escravizados. 

Compreendo que deixar entrar novas versões possa ser perturbador. Porém elas existem e para as conhecermos basta estudar. E não as deixar silenciar por quem o quer ainda hoje continuar a fazer.

Epílogo poético

Até há pouco tempo, nos vários anos que vivi por alguns países africanos, colonizados pelo Império Português, os resquícios deixados pelo colonialismo e pelo racismo estão bem vivos e recomendam-se. Como em tantos outros lugares por esse mundo que descobrimos, escravizámos e colonizámos como os demais europeus.

Tratar estes lugares como cenas de um crime violento contra a Humanidade e desconstruir a única versão contada é a minha pretagogia. Dar o lugar de fala a quem tem agora de falar. 

Eu branca, Portuguesa falei durante séculos. Agora calo-me e ouço o meu lado preto, Africano.

Nunca irei cancelar o lado da epopeia marítima Portuguesa. Nem deixarei que cancelem o lado da Escravatura.

Quem fala sobre a última é levada ao cadafalso. O que é incompreensível a menos que haja uma agenda de branqueamento da história. Será? E se existir? Que se foda! Vou-me repetir!

Farei prosa e poesia, a dizer as mesmas coisas, nestas conversas que não acabam nunca, entre os meus ancestrais brancos (Os Outros) e os meus ancestrais pretos (os Uns).

A eles o lugar de fala:

Dizem Uns:

-Porque não chamar invasões, 

e navegações 

em lugar de descobrimentos? 

Porque não?

Dizem Outros: 

– Porque se trata de uma epopeia! Em dez cantos.

De navios grandes, marinheiros e navegadores afoitos

brilhantes e corajosos

Dizem Uns 

– E as outras, as nossas histórias?

Essas ficam para outros obscuros contos

ou versos irrelevantes?

Dizem Outros: 

– Vou negá-las firmemente! 

Se as contares direi – mentem, só mentem!

Dizem Uns: 

-Não me calarei! Contá-las-ei eu!

Pela voz dos meus descendentes!

Ouçam as suas vozes: 

-Quando o barco grande aportou

ninguém se importou

a uns até atiçou 

a sede de trocar umas moedas e panos,

mas as armas disparavam sons mais altos

não havia defesa possível

se nem tão pouco das razões de semelhante tratamento sabiam

Quando chegou o barco grande 

levou homens mulheres e crianças,

no ventre côncavo 

para a longa travessia

enquanto no convés

brilhava o sol 

nas poças de água salgada 

que dos olhos da gente caía

e ninguém das razões entendia

Quando o barco grande zarpou 

deixou no cais olhos vazios 

rostos com sulcos abertos

deixando distâncias no peito

de quem era deixado

matando quem era levado

a velha antepassada chorou

água salgada 

a mesma que dos olhos 

dos seus irmãos netos e filhos, 

caía e molhava o convexo

dizem Outros:

-não chorem, não se matem, não morram 

precisamos dos vossos corpos

enquanto os céus choravam 

na sua linguagem de estrelas

cadentes

-é só uma viagem para terra longe

desconhecida

vestida de esperanças

vejam, vejam, clamavam:

-crianças brincam no convés

homens e mulheres vivem em danças

no balanço 

do grande barco

respondem Uns:

– não, não é nada assim 

nos grandes barcos

de ventre inchado de gente

de cor diferente

por terem cor do branco distante,

rasgados da sua humanidade

comprados e vendidos 

por homens que os despiam de dignidade

com dinheiros atraiçoados 

estas vidas roubadas 

de homens, mulheres e crianças, 

nem nunca prometeram 

uma luz acesa de esperança

Segundo os seus ladrões,

e aqueles que os defendem,

todos dançam ao som das correntes

pés no balanço das ondas

e se os roubados disserem que os chamam escravos

eles gritam “só mentem”

dizem Outros entredentes – 

estes pretos além de não serem humanos 

são uns ingratos

porque tanta foi a bondade com que foram tratados

os juros do seu trabalho? 

Tocando o saco de moedas escondido no bolso repetem: 

-”nunca foram contabilizados…”

só deram trabalho!

Os Outros com escárnio e em surdina continuam a contar: 

-Nós construiremos uma casa de branquinho telhado

que perdurará 

sustentada por um sistema refinado 

em castas e cores baseado 

Enquanto Uns, descendentes dos escravizados clamam 

-a invasão dos territórios e a tomada à força pelas armas

a escravatura dos homens, mulheres e crianças,

levadas pelos oceanos,

foi a vergonha de um crime 

num laço embrulhado

ganhado com juros elevados,

definida apenas pela cor preta

fazendo o engrossamento de uma meia dúzia de contas correntes

Rindo alto, os Outros, os meus antepassados brancos seus donos:

– haverá quem nos defenda com unhas e dentes

e venha a arranjar outras versões para cobrir estas 

que deixamos como sementes,

só alguns dos nossos

os envergonhados e ranhosos decentes 

pedirão perdão, o crime reconhecendo

Que quereis? Era assim a época!

E nós decidimos e diremos:

Eram pretos ignorantes e sem vergonha

hostis e habituados à escravidão,

a vida deles nada mais era que dança e orgias

nas terras onde nasceram 

e nas terras para onde foram levados

onde séculos depois, esperando boa sorte

foram abandonados 

que se fodam!

Desenrasquem-se, gritámos! 

Por séculos a casa foi construída,

com o sistema aperfeiçoado

que persistirá,

e se alguém desavergonhado 

disser que aqueles homens, mulheres e crianças eram escravos 

e foram maltratados

das suas terras roubados 

levados no convexo de um barco grande 

no balanço 

escondendo

a vergonha no côncavo

só por terem cor de pele diferente

nós clamaremos pisando e repisando

eles mentem, só mentem…

Respondem Uns, os meus antepassados pretos, pisados

-Para a defesa estarei preparado!

Tu e eu iguais somos,

até filhos fizémos,

no entanto deixáste o ódio solto,

eu sem agendas outras, 

que não a de reclamar a posse da história do meu passado

de laço amarrado

ao concâvo do barco grande 

onde seguia o meu antepassado,

com os meus irmãos, 

haveremos de repôr a verdade

contando os crimes de que és culpado

e dos quais até hoje fizeste teu 

os seus benefícios

fazendo cair o teu sujo telhado

abrindo caminho para que as vozes 

ocupem no convés o lugar devido

sejam respeitadas,

e nunca mais pisadas!

Como a casa erigida tem a sua sustentação no racismo sistémico, hoje manipulado, escondido e maquilhado, façam o passo mais além, além da Taprobana e ajudem a deitá-la abaixo, dando novos mundos ao mundo.

Nunca mais deixando que os partidos de direita, racistas, fascistas, que descriminam cheguem ao poder. 

Nunca mais deixando que deputados e activistas de qualquer naturalidade, descendente de Uns, que lutam contra a sustentação da casa erigida por Outros, sejam diminuídos e silenciados.

As vozes dos meus antepassados agradecem aos ouvintes. Que vocês os vejam e ouçam como eu, dignos de terem as suas vozes ouvidas e reconhecidas. Não há outra forma de reparar o mal perpetuado.

O capitalismo iniciado no século XV com os donos e os escravizados reveste hoje novas modalidades – nós Portugueses mais evoluídos mas tão miseráveis quanto no passado, continuamos a dar mundos ao mundo porque somos competentes, sendo a força de explorados que produz para os exploradores, avançamos pelo mundo descobrindo como sobreviver, por vontade própria, não obrigados, mesmo que à mercê de outros Impérios.

O capitalismo seria interessante se desse qualidade de vida e dividisse as riquezas, produzidas pelos explorados.

A diferença maior de hoje para o passado dos meus antepassados?

Hoje os Uns não apanham com o chicote nem estão presos a correntes. Nem foram roubados e abandonados ou… Só.Por.Serem. Da cor Preta. 
Anabela Ferreira

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