Engordar, rezar e desamar

Desanuviando neste mundo mal frequentado, entre um trago de rum em substituição de café (este último deixa-me nervosa), de células cinzentas num tom cinquenta vezes mais escuro, deixo um escrito relaxado. É antes a sinopse de prosa poética romanceada de cordel (pulp fiction), desamorosa, desamargosa, como se se tratasse do disparo de um Tomahawk de poesia desesperada, sugados que fomos no parto de um um nado-morto, enquanto esperávamos um melhor produto de conquistas e avanços. 

Eis que somos comidos, desintegrados e destroçados por um vírus confinado na asa de um morcego ou na pata de um pangolim, que nos acantona, fechados e desarmados como ilhas isoladas, primeiro estranhando, desconfiando, até chegarmos ao desespero do desejo de querer a qualquer custo sair da ilha, que isto da espécie foi tecida com a força telúrica de usufruir e manifestar a imunidade da liberdade em grupo que nunca prescreve, nem que seja corrompida. Tudo começa à capella, em coros mais ou menos desafinados, isolados nas varandas, destilando amor, bondade e compaixão numa manifestação de amor-próprio e por outrém, cozinhando todas as qualidades de pão caseiro em fornos nunca antes desbravados como se estivéssemos em Roma numa viagem gastronómica, batendo palmas a médicos e enfermeiros, que com o passar do tempo ficavam de batas desbotadas de tanto turno cansado da morte que o vírus grassava, enquanto se mutava para nos ir enganando, rezando com vontade de nos deslocarmos de joelho a Pequim pedindo perdão pelos pecados da Humanidade, aclamando caixas de supermercado, almeidas, entregadores motoqueiros, músicos, escritores, poetas, actores e professores, afinal as únicas profissões curiais, a par com a sensação de paz que nos proporcionavam as orações, engordando com as receitas das avós, limpando freneticamente as compras com lixívia, enquanto as sinapses cerebrais mutatis mutandis com a absorção do gel na pele acumulado vindo também do distanciamento forçado.

Acompanhávamos tanto bichos instagramáveis que nos animavam, ouvíamos concertos que nos entretinham e faziam esquecer momentaneamente a desdita doença feita pandemia que não havia meio de se corromper, voltando ao mundo animal quanto acompanhamos ditadores e crimes à vista desarmada. Foi sol de pouca dura, os slogans montados “vamos ficar todos bem”, o arco-íris a engalanar o barco que a todos leva, rolando sobre rolos de papel higiénico por medo de desarranjos intestinais quando o pesadelo se fizesse desperto nas diferentes embarcações, nem todas contando com salva-vidas suficientes, ou intestinos forrados a ventiladores desmoronam-se.

Estávamos a ser fodidos sem sermos comidos. A crise instalava-se silenciosa e insidiosamente. Até começar a berrar como a criança quando é cuspida para o novo mundo. Sorrateiramente o vírus foi instalando um chip de última geração, mascarando-nos as vias respiratórias, destapando as vias criminatórias, os maus fígados e os básicos instintos. De repente vemos o que nos deveria ter deixado indignados com os indignos que nos roubam os sonhos. Há anos. Como um herpes latente desperto. Como uma tempestade que se encontrava a cozinhar em pressão. Um sistema repressivo, nada democrático, um mundo distópico onde os capitais viajam nas malas da impunidade, sem qualquer confinamento ou forma de isolamento entre si apenas com equipamentos de protecção contra todos nós, os zés-de-ninguém. O vírus tinha-se acomodado na sua função, tinha-se tornado um passageiro frequente num excelente hospedeiro. Que comia, orava, amava. E era distraído. A organização da reza, do amor e da empatia, da meditação zen, a organização da vida zoom, a organização do mundo reprimido estava prestes a zás, implodir nas nossas mãos. Cada um que se desenmerde. Foi-se o amor. 

De repente acordamos da sesta pós-refeição, levantamos os olhos da prece e vemos o amor no adro, a fugir. Ficámos tão pobres que já nem sei se nos acalenta a sopinha e a peçazita de fruta feia. Temos finalmente um experimento científico em larga escala, absolutamente inacreditável com a vacina barata que cura e coagula, que suscita suspeitas e orações. Mostrámos belas e vibrantes cores. Podíamos estar mais parecidos com o arco-íris. Mas estamos mais pobres. Temos uma nova consciência. Conhecimento que já vem de longe, mas convém relembrar. Se nos forem dadas as condições certas comportamo-nos como um vírus. 

Adaptamo-nos ao que pior soubermos fazer. Faremos de tudo para sobreviver. Se é para matar, então matamos. Qu´isto da pobreza é como o racismo ou como uma violação. Há quem negue e há quem não perceba porque nunca lhe aconteceu. Há quem pense que só aconteceu porque a vítima se colocou a jeito, não se defendeu, aceitou por ser fraca e não bateu o suficiente. 

Há quem acuse a vítima de ter vivido acima das suas possibilidades de cozinheiro, de ser pouco crente e pouco amoroso. Enfim, coisas da vida que dão um belo romance de cordel. Esta é só uma sinopse.

Anabela Ferreira

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