Eu acredito

Um predador sexual não precisa que a esperança transite em julgado ilibando-o. A lei acoberta-o nos cobertores mais quentinhos. Os amigos abraçam-no e acarinham a pessoa de bem que julgam inocente, porque não conhecem outra. Porque com eles nunca ele manifestou a sua sede por domínio e poder sexual com a vítima. O predador sexual não se dá a conhecer a ninguém. Quando alguns amigos percebem, viram e ouviram relatos em surdina, ou sabem através das gabarolices sabujas, fecham os olhos, cerram a boca, silenciam a alma, tornando-se cúmplices, alguns rindo até dos feitos conseguidos e das suas malandrices…

A vítima vive sem o privilégio de ter cobertura da lei, da protecção dos amigos, ou a viver com a inexistência de medo de sofrer um ataque de um predador sexual, ao longo de toda a sua existência como mulher. Vive a ouvir conselhos sobre como se deve sentir, o que deve fazer, como deve ser uma mulher. Calem-se de uma vez! Só ela sabe.

Como uma vítima de racismo. Não precisa de conselhos vazios da cor que vive com privilégios. Ela é que sabe o que sentir, como e porquê. 

Fala-se muito de serem as mulheres a educarem os seus filhos homens. Pois eu digo que devem cada vez mais ser os homens a educar os seus filhos a respeitar as suas mulheres. A educar e a desconstruir o quanto de errado no patriarcado existe, aos outros homens amigos. Porque são eles que há séculos dão cobertura através das leis, dos abraços e do silêncio cúmplice aos seus pares predadores.

A mulher quando não fala aos seus homens que sofreu um ataque está inconscientemente a proteger os seus homens dos seus próprios pares, além de conscientemente se saber desprotegida pela lei do sistema, pela descredibilização e pela falta de sororidade. Acrescentando a violência de reviver todo o trauma mais e uma vez.

Ontem soube de um comportamento predatório por parte de um amigo. Soube de outros. Não o abraçarei nunca mais. Porque acredito na mulher que tem medo de o expor. E ela tem todo o direito. E o amigo, artista brilhante e reconhecido – eu já não separo o homem da sua arte – para mim não terá direito a estar inocente até prova da sua culpabilidade, porque diz a esperança da vítima ser ouvida e levada a sério, que está presa, sem culpa formada, nunca transitada em julgado.

Eu ouvi. Eu acredito.

Ficarei esperançada que um dia, um dia a justiça seja libertada.

Anabela Ferreira

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