Memórias de uma puta cansada

O que queres ser quando fores grande?

-Prostituta.

Hoje já velha, digo puta sem a limpeza do politicamente correcto (o dia é hoje – a puta também tem um dia).

O diálogo acima aconteceu comigo e um adulto quando eu tinha cinco anos.

Toda a minha vida tenho vendido o tempo do meu corpo físico por dinheiro, como se o trabalho fosse a maior prioridade da existência. Todos sabemos que não é.

A existência foi-nos programada num sistema violento, por mãos humanas.

Incluindo lavrar terreno para plantar as mulheres na miséria, a maioria das quais vendendo-o no limiar da indigência com a finalidade da satisfação sexual do cliente.

Falar de putas equivale a falar de sexo e prazer, proibido na longa história da degradação humana. Quase sempre o prazer dos homens através da submissão do sexo feminino.

Não vendo o meu corpo para sexo, mas da forma como vivemos, o verbo foder tem a mesma conotação quando fazemos trabalhos miseráveis, em troca de ordenados de miséria com a finalidade de uma vida miserável. Para milhões de vidas, a quase indigência. O meu respeito vai para essas mulheres, musas inspiradoras de tantos artistas.

Sendo a prostituição a profissão mais antiga do mundo, porque razão às mulheres foi negada a inclusão no prazer sexual pelos homens e à exclusão dos direitos de preservar o seu corpo? porque razão então não ser uma profissão segura e com direitos?

Ou as putas não são como eu e como tu, onde incluo todos os seres humanos?

Se não fossem as mulheres terem tido quase por defeito, modelo e padrão históricos a impossibilidade de uma vida económica digna, não fosse o corpo proporcionar-lhes rendimentos para matar a fome ou o vício, o que seria do prazer proibido dos homens através do sexo?

Nem nego que haverá as que tiram prazer da sua própria profissão. Quem sabe escolheram-na.

Deixo aqui uma confissão, se eu tivesse decidido de facto servir o meu sonho dos cinco anos seria uma puta riquíssima e famosa. Teria um bordel podre de chic, sem divisão entre pobres e elite, de apenas deusas protegidas, ligadas à espiritualidade e elevação através do acto sexual, numa ocupação respeitada – como o foi antes da sociedade patriarcal, esta reduzindo as mulheres a seres submissos e a meretrizes.

Seria um clube inclusivo que serviria meninos e meninas onde o sexo não fosse visto como pecado e indigência.

Seria um clube recreativo de um prazer tão natural e tão antigo quanto a humanidade, de comunicação entre pares.

Deixo para o final o meu outro lado, o meu lugar de fala ancestral – o lado preto. O lado que foi usado para a prostituição por homens e mulheres, num sistema conduzido por homens onde as mulheres brancas submissas se assumiram de uma casta superior, de uma elite, posteriormente até feministas.

Com efeitos e consequências ainda hoje sentidos, deixaram a mulher preta no lugar inferior de mães dos filhos mestiços concebidos de noites de prazer masculino e violação feminina, o lugar das putas, o lugar reservado às proscritas.

Eu prostituta me confesso.

Anabela Ferreira

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