Naomi Osaka em Roland Garros, tempos de mudança

“Ou participas nas conferências de imprensa pós jogos ou levas uma multa e expulsamos-te do torneio.” 

Esta é a espada que os atletas têm sobre o pescoço quer eles queiram quer não, na indústria de fazer dinheiro chamada desporto de alta competição, neste caso o ténis, quando ainda crianças ocupam a pesada e enorme responsabilidade do desempenho físico ao mais alto nível.

Todos podemos entender que a compatibilidade entre saúde mental, equilíbrio e bem-estar e o mais elevado desempenho físico é altamente frágil e nem sempre se conjugam na mesma frase, a começar na vida destes atletas com um talento especial e uma vida dura. Naturalmente por escolha, mas de quem nós público exigimos que sejam deuses perfeitos. Humanos a quem não admitimos erros. 

Naomi Osaka a tenista número 2 do mundo é ainda uma criança com 23 anos e ao receber esta ameaça escolheu sair do torneio. Porque em particular no ténis, onde a descriminação por estar entre os primeiros, ser mulher e preta cria ainda uma pressão ainda maior, sobretudo em França. Osaka é uma jovem introvertida que sofre de ansiedade e medo do público fora de um court de ténis com uma raquete. 

Decidiu retirar-se do torneio uma vez que não foi respeitado o seu pedido de não ter de enfrentar as conferências de imprensa que se destinam ao circo da máquina de fazer dinheiro.

Que o diga Serena Williams que já passou por ter de provar o que vale, a triplicar, por ter de ver-lhe impedido o uso do “catsuit” preventivo de coágulos no sangue, causando enorme pressão na sua saúde mental e bem estar. 

Entre outros exemplos de pressão das aves de rapina que não sabem ser jornalistas e apenas esperam ver sangue ou puro gozo.

Ou o caso de Simone Biles. Ou Nadia Comaneci e tantas outras. Os homens por vergonha calam-se. As mulheres como sempre, têm a primazia de não serem ouvidas. 

O elefante em cima da mesa é este. Nunca conseguiram inverter as regras absurdas de respeitar antes de mais a sua saúde mental e bem estar destas atletas em particular. São centenas as atletas que têm lutado como nenhum homem teve de lutar para ganhar o mesmo, ter o mesmo estatuto e ver preservada a sua saúde mental. 

Dizem estudos que em sexto lugar vem o medo de morrer e em primeiro lugar o pânico de falar em público, neste caso perante dezenas de jornalistas muitos dos quais estão ali para apontar falhas depois dos jogos. 

Eu que sou uma desavergonhada, quando tenho um papel na mão para ler um poema, preferiria ter um buraco para me desintegrar e tremo descontroladamente. E é só uma poesia. São as nunces diabólicas do cérebro. 

Então porque razão estes atletas têm de estar ali se não querem estar? Faz parte do jogo? 

Não. Se não se sentem confortáveis e até informam os responsáveis sobre o assunto o que está primeiro? O dinheiro e o circo ou a saúde mental e o bem-estar dos atletas? (pergunta retórica).

Finalmente, uma atleta como Simone Biles teve a coragem de falar sobre a violação que sofreu às mãos de Nassar o seu preparador físico, mudando o panorama do que se passava no mundo horrendo da Ginástica e sobretudo no que esse facto acarretou para a sua perda de saúde mental. Em seguida vieram mulheres às centenas denunciar os abusos e as violações. 

Felizmente Naomi Osaka tem a coragem de falar sobre o assunto da saúde mental, perdendo prémios e ainda perdendo a possibilidade de ganhar o torneio. 

Só falando começam as mudanças. Que esta atitude de Naomi Osaka sirva de exemplo para que a Instituição que gere a modalidade comece a mudar. 

Tal como em todos os assuntos, os tempos do futuro não devem mais ser tempos no passado e ponto final. 

Well done you Naomi! I have your back. 

Diz uma admiradora e uma super fã de ténis. Para mim és a grande vencedora de Roland Garros.

Anabela Ferreira

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