Noah

Noah – Tradução do nome : Quando anjos conspiram em conjunto para proteger uma criança.

Movida por sabe-se lá que força da natureza e desejo de aventura nasceu um pequeno Rambogyver.

Por ter lido tanto ódio ser destilado nos comentários das notícias, resolvi voltar a usar a rede para contar uma historinha, com a alegria de saber que Noah foi encontrado são.

Soube pelo meu pai (aos quarenta anos) que a minha mãe tinha vivido com ansiedade até o meu filho (e seu neto) ter dois anos. Porquê? Porque a minha mãe achava que eu podia um dia esquecer-me da alcofa do meu filho no balcão do talho ou no banco do jardim dos patos.

Eu também achava que isso me podia acontecer. Ser distraída e viver num universo paralelo muitas vezes, criou-me o desconforto desse medo. O pior medo que os pais enfrentam.

O certo é que vivi com a angústia, tal como a minha mãe, de que uma situação destas me acontecesse. Por me saber distraída e por perceber que tinha um aventureiro em casa. Se tinha! Existia o perigo de sair sozinho a fazer as suas cenas aos dois anos e meio? Claro. Fez várias e foi sempre assim.

Por prevenção, com dois anos ensinei-lhe tudo o que ele tinha capacidade cognitiva para aprender. Eram verdadeiras aulas de sobrevivência. Aos dois anos o puto tinha a possibilidade de sobreviver, saber o caminho de casa, saber dizer a morada e o nome dos pais. Aos dois anos e meio era autónomo. Podia-se perder que teria recursos para se desenrascar. Este era o meu espírito ao educá-lo, não fosse o diabo tecê-las.

Por sorte – sim, trata-se de sorte em muitos destes casos – já que basta um segundo de distração, nunca o perdi. Apesar de um dia quase me ter esquecido dele num parque. Não sou a super mãe sem falhas. Alguém é?

Pergunta retórica para os pais que se acham perfeitos.

Antes dos quatro anos comprei uma trela para crianças, porque o meu filho tinha o espírito indomável do Rambo e a perícia do McGyver mostrando-me o “perigo” de autonomia, independência e aventura que tinha parido.

Um Rambogyver.

Apanhei imensos sustos com ele, vivi angústias diabólicas quando quase morreu num acidente de bicicleta e ficou em coma, dada a sua inclinação ao perigo e à aventura mesmo junto de adultos conscientes, vigilantes e nunca negligentes.

Por tudo isto estive ao lado esquerdo, no coração destes pais, conhecedora da angústia de ser mãe de um ser com o espírito independente e autónomo contra o qual não se luta. Aceita-se e prepara-se o melhor que sabemos.

Podia ter acontecido o pior, ter sido um caso grave de negligência ou até de violência. Mas não é o caso. Foi um caso de angústia e desespero com uma criança que sem ter consciência, se “achou” preparada para a vida.

Como as crianças se julgam. Eu posso, eu consigo, eu sei. Eu sou imortal.

Uma criança é uma força da natureza que nasce sem livro de instruções.

Se estiver bem preparada com ferramentas de vida dadas e capacidades cognitivas inatas, podem os pais ter a sorte de a ver desabrochar num sobrevivente, porque a vida não é para meninos.

Noah, um dia irás perceber que mesmo estando na posse de muitas ferramentas, não sabendo, fizeste uma loucura e todo o país susteve a respiração, rezou, acreditou, chorou e esteve no lado esquerdo do teu peito para te proteger.

Os teus pais tiveram as suas vidas suspensas, como eu já tive por um filho, foram acusados de tudo e mais um par de galochas que tu soubeste calçar sozinho – como tantas crianças fazem, e, tiveram a ajuda de todos.

Irás um dia saber mas sobretudo entender que foi preciso uma conspiração dos anjos de toda uma aldeia para te proteger. 

Anabela Ferreira

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