Queridos companheiros humanos,

Hoje comemora-se a libertação do campo de concentração Auschwitz-Birkenau, em 1942, onde se fizeram experiência médicas selvagens e gazearam milhões de seres humanos como nós. Só naquele campo. Parece mentira. Mas não é.
Hoje, celebramos as vítimas que foram escolhidas por serem: judias, pretas, deficientes, ciganas, homossexuais, dentro de um regime que elegeu democraticamente os algozes. Parece mentira. Mas não é.

Nós somos a luz e a sombra de nós próprios. Por isso, ainda hoje não apenas negamos os factos, como estendemos a passadeira a quem quer regressar à desumanização.

Queridos companheiros humanos,

Só vim lembrar, os milhões de vítimas que em nada são diferentes de mim e de ti.

Partilhamos o mesmo ADN e a mesma espécie. Somos todos, os sete mil milhões de habitantes do planeta fruto da mesma raiz, que deu uma larga árvore com vários ramos, uma mistura de cores, etnias e grupos religiosos.

Ou seja, não há ninguém que não tenha ascendência preta, judia, árabe, romana, grega, asiática ou qualquer outra. Só porque existimos há meia-dúzia de anos na terra como um grupo de migrantes, na espécie que somos hoje não faz de um qualquer pequeno grupo, superior a outro.

Só nos diferencia o fenótipo e os gostos/ opções sexuais, religiosos, ou a escolha da roupa. E a situação económica, obviamente. Se te tentarem dizer o contrário enganam-te. Manipulam-te. E riem-se porque sabem que és tolo e vais obedecer às ordens absurdas e malignas que te mandarem, se necessário for. Ou vais servir de espectador, como se estivesses a ver um big brother na tua televisão.

Eles já fizeram a experiência. Nós sabemos. Há estudos. Aconteceu na Escravatura e o Holocausto aconteceu na Alemanha há pouco mais de meio- século. Ambas têm a sua parte de negacionistas e revisionistas. E falam alto e têm palco. Parece mentira. Mas não é.

Limitaram-se a ser simples – manipularam, fizeram acreditar que uns eram superiores a outros, fizeram aceitar mentiras como verdades (incluindo as de cariz económico), a ficarem a assistir e/ou a obedecer a ordens, em silêncio. Tornaram gente indiferente às injustiças. Tolhidas pelo medo, ou simplesmente desinteressadas. Não era nada contra elas…Já viste quão fácil foi? Pode voltar a ser. Parece mentira. Mas não é.

Porque é gente da espécie a fazer experiências com os da sua espécie por duas razões simples: o poder e o dinheiro. Incrível não é? É a História da Humanidade.

Banalizaram o mal e só seis milhões de seres como nós foram gazeados, os muitos outros milhões eram os que referi e repito: pretos, ciganos, homossexuais e deficientes. Em Auschwitz/Birkenau.
Eu que descendo directamente de judeus, de pretos e tenho a certeza que tenho ciganos, homossexuais e deficientes na minha cachupa, e agora que a vida me deu um filho e netas, coloco-me duas perguntas que não gostaria que a minha descendência alguma vez viesse a fazer:

-quem de seu juízo perfeito e porque razão alguém me odeia tanto? -Porque razão também têm tanto medo de mim?

Querido companheiro humano,

O ódio e o medo irracional para conquistar poder e dinheiro são foda! Fazem com que gente como tu e como eu nos coloquemos num pedestal. O pedestal do sapiens-sapiens com pés de barro. Não te leves a sério quando te dizem que és superior a outros. Que vales mais que um preto, cigano, judeu, homossexual, deficiente, ou qualquer outro. Estão a enganar-te e a rir-se na tua cara.

Estão a colocar-te na lista dos que obedecem sem escrúpulos e conduzem a câmaras de gás. Ou qualquer outra situação de horror, de desumanidade. Que transcende o papel da espécie. Lembra-te querido humano, independentemente da religião, crença, fé, gosto, etnia, cor, não é essa a nossa missão.

Não somos. Superiores. A. Ninguém. Nunca. Em nenhuma circunstância. Por nenhuma razão.

Pensemos nas vítimas. Pensemos nas injustiças. Na impunidade que vigorou durante anos.

Lembremo-nos, queridos companheiros humanos, não deixemos que se repita. Não neguemos nem arranjemos desculpas quando virmos o mal a ser banalizado à nossa frente. Nunca sejamos indiferentes às injustiças.


Anabela Ferreira

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