Telegrama aos americanos

Queridos cidadãos (masculinos em particular), desta casa global, sob a bandeira das riscas e estrelas vermelha e azul, dominada por um grupo de cidadãos idosos com muito dinheiro poder e armas, que vive obcecado com poder e guerras.

Homens que seguem o livro sagrado da Igreja erguida em nome do filho de Deus (que em nenhum verso ou metáfora reflecte pete o pensamento de Jesus sobre o domínio masculino relativamente ao corpo e à vontade da mulher), dizia eu, e se tivessem recebido o milagre de ter o jarro de preparação de outra pessoa durante nove meses, incluindo as indesejadas, as que são fruto de violação, as que trazem defeitos, com ou sem condições económicas, físicas, morais de as carregarem?

Certamente pensariam diferente e aprovariam o aborto num abrir e piscar de olhos em todos os Estados, nem que para isso tivessem de usar as vossas amadas armas.

A escolha não vos pertence por direito e vocês sabem disso. Anatomicamente.

Histórica e como forma de dominação já é outro assunto.

O medo de perder o controlo e o poder. Para os vossos egos esse é um pormenor demasiado pesado fazendo dele um caso de lesa narciso.

Aqui reside a minha pena, por serem tão mesquinhos e hipócritas como não há igual no mundo que se diz civilizado.

Essa palavra obviamente não vos veste nem vos define. De que serve irem à lua se passam a vida em guerras e se matam os vossos filhos nelas?

E noutros detalhes nos quais nem vou entrar. Claro que têm muitos motivos de admiração, não vos odeio. Nem sou anti-americana. Até já vivi um tempo na vossa terra. Mas não me vou desviar.

Recebam um conselho amigo de uma avó africana -europeia, que sabe o que vocês fizeram não apenas no verão passado, mas ao longo da vossa curta história de conquista territorial, de desprezo pela vida, de exploração de pessoas, de crimes sexuais, de submissão, de atrocidades e crimes contra a humanidade na vossa curta e brutal história os quais tentam esconder com uma educação bastante centrada num umbigo branquinho a pontos de nem saberem localizar no mapa o país onde eu nasci.

No desconhecimento da vossa história incluo o uso de mulheres pretas (minhas antepassadas), como reprodutoras de outras vidas que foram usadas como escravas.

As mulheres continuam a ser o vosso calcanhar de Aquiles não é? Aliás o sexo é.

Se for pensar em como vocês lidam com o conservadorismo, o puritanismo mas violando e traficando crianças e adultas para sexo, fico sem páginas para escrever. Não é à toa que o movimento #metoo nasce na vossa casa. Ou o Epstein e outros que envolvem escândalos sexuais.

Again, I digress…ou não! É tudo o mesmo assunto.

Vejo-vos regredir para uma Idade de Trevas, como quando a vossa amada mãe Igreja na Europa queimava mulheres por as considerar bruxas.

A cruz dessa Igreja que vos comandava os primeiros homens, entrando terra adentro (como numa violação) roubando estrelas, instilando terror, violando e matando quem por lá habitava e quem mais tarde foi forçado a ir exercendo a política “aqui mandamos nós com o nosso livro e a nossa arma”!

Esse é o mesmo medo que vejo assolar-vos hoje quando atacam assim o direito humano da escolha das mulheres – o medo de perderem o controlo, igual ao vosso medo de perder o poder.

É este igual ao medo de perderem o controlo sobre as pessoas de cores diferentes que até hoje querem sob a pressão do cano das vossas amadas armas.

Armas essas que servem para matar vidas indesejadas fora do jarro uterino, vidas criadas à lei da bala e da pobreza, não é? Mas o que é que vocês andam a fazer?

Pergunto-vos como ser humano a outro ser-humano.

Orgulham-se de não ter um sistema de saúde universal e gratuito. Sobretudo para mulheres grávidas ou sequer simplesmente mães com bébés.

Funciona o mercado.

Orgulham-se de ter um sistema cruel de adopção, de lares e famílias de acolhimento miserável, onde os maus tratos e a violação e o tráfico de crianças são o prato forte, de gente sem casa e crianças de rua como nem Cuba tem, após tantos anos de embargo por vós imposto, e, de pobreza extrema que leva ao crime extremo. Sem dúvida o mercado capitalista a funcionar.

Orgulham-se de terem essas vidas sem qualquer protecção vinda das vossas leis pré-natal, concebidas como pró-vida…

As vidas são a matéria-prima que vocês como sociedade polícia do mundo estão a transformar numa obra-prima.

Será por isso que não as querem deixar abortar?

Sabem bem que o vosso toque de Midas vale ouro – tudo o que é proibido as vossas máfias encarregam-se de tornar em comércio, em condições asquerosas para não apenas dar muito lucro como conduzir a mais mortes.

Queridos decisores americanos, vocês têm um grande olho para o negócio, tiro daqui o meu chapéu.

O olho só não é certamente pró-vida.

No entanto desculpem esta pobre tonta, tenho que me imiscuir porque este é um assunto de todos como humanidade, se este é o vosso pensamento mais cristão, vindo da palavra de um homem que escorraçou os vendilhões do templo e abraçou todas as mulheres, vocês estão com um grande problema. Nada dura para sempre.

Vou ali benzer-me por vocês.

O vosso poder e controle vai-se naturalmente com tempo e luta, esvaziar como um balão no 4 de Julho, o dia que assinala a independência da vossa tribo mãe.

Como ela aconteceu, isto de serem os donos disto tudo vai acabar por acabar.

Isto de terem nas mulheres as vossas cidadãs sem carta de identidade plena, também.

Como bem sabem, a vida antes de se acomodar no jarro uterino da mulher começa a partir da vida que sai do membro sexual masculino.

Então, sigam o conselho desta avó, façam uma intervenção médica saudável que previna a saída do sémen.

Deixem os vossos pares legislar sobre os vossos corpos. Se preferirem deixem as vossas mães, mulheres, irmãs e filhas legislar sobre o assunto. Ou será que têm medo?

Que Deus vos abençoe.

Anabela Ferreira

Um comentário a “Telegrama aos americanos”

  1. Vitor José Pinheiro diz:

    Bom, chegou a hora de lhes agradecer, é que antes de vos descobrir cheguei a pensar que era eu que batia mal da bola, OBRIGADO pelos bons artigos aqui debatidos.

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