Anatomia de um ditador

No meio da autêntica saraivada de comunicados, conferências de imprensa, sessões de esclarecimento e infindáveis programas televisivos sobre a actual situação no Sporting, o essencial das actuais questões da nossa sociedade, e até dos próprios problemas do clube, vai passando entre os pingos da chuva.

E, todavia, essa situação constitui um autêntico caso de estudo, que nos deveria levar a reflectir a sério sobre o modo e as razões de como se torna possível, para não dizer quase natural, chegar-se ao ponto a que se chegou. Seja num clube, numa associação, numa força política ou num país.

Antes de mais, importa ver que o mundo do futebol profissional há muito que passou a ter muito mais a ver com os negócios e os interesses financeiros mais obscuros do que com desporto.

Em particular com a criação e o modo de funcionamento das SAD’s, estas e os clubes a elas ligados transformaram-se em robustas e mais ou menos eficientes “máquinas de lavar” (dinheiro, obviamente…). E, transformada uma associação desportiva em algo que é suposto render euros ou dólares, foi-se cada vez mais impondo a lógica capitalista da proclamada “ética dos negócios”. Ou seja, se é (apenas) com vitórias que se alcançam títulos, se valorizam “activos” (como se passaram a chamar os jogadores) e se acede a competições internacionais com os correspondentes ganhos, vale tudo, inclusive “tirar olhos”, para alcançar o sucesso e a vitória.

Começa assim a impor-se crescentemente a ideia de que, embora lá não muito correctos, será admissível e justificável utilizar outros meios. Começa-se pela criação e tráfico de influências com os decisores políticos e financeiros, com uns lugares de camarote para aqui, uma viagem ao estrangeiro a acompanhar a equipe para acolá, com tudo, desde a própria viagem, alojamento, refeições e bilhetes para o jogo, generosamente pagos.

Segue-se a “normalidade” da troca de atenções e favores: uma cedência, mais ou menos gratuita, de terrenos municipais (normalmente justificada com o “fomento do desporto” e formalizada em tão pomposos quanto espectacularmente apresentados “protocolos”), uma isenção (mais clara ou mais encapotada) do IMI, uma “alteraçãozinha” cirúrgica do PDM ou até – porque não? –um perdão da dívida bancária ou fiscal.

E, pelo meio, o elogio do “sucesso” a todo o custo e o “fechar de olhos” perante a sucessiva imposição da teoria de que a suposta legitimidade do fim – a vitória dita “desportiva” –, afinal, justificará o mais sórdido dos meios, desde a obtenção de favores da arbitragem (a troca seja de dinheiros ou serviços sexuais, por exemplo, seja da progressão na carreira ou da atribuição de cargos importantes nos vários organismos desportivos) até à compra de resultados e de jogadores.

No meio de toda esta podridão – em que o gosto sincero pelo desporto e as preferências e paixões clubísticas são de todo manipulados para servirem de “guarda-chuva” a toda a sorte de negociatas e malfeitorias – o “jogo” das comissões e respectiva repartição pelos amigos, decorrentes de transferências, a promiscuidade mais absoluta entre o mundo dito do “desporto”, o da política e o das Finanças e até o da Justiça (já repararam que os dirigentes desportivos de grandes clubes só são presos depois de deixarem tais cargos?) vai-se impondo sucessivamente. E quem aparece a defender e a proclamar princípios é, no mínimo, apresentado, com um sorriso condescendente, como “um autêntico lírico” e, no máximo, apontado como um alvo a abater por não ser “eficaz” na obtenção dos tão almejados sucessos e vitórias.

Num lamaçal como este, e em particular em situações de crise, sejam elas de resultados desportivos, financeiros ou ambas as coisas, torna-se muito fácil surgirem e singrarem, mesmo fulgurantemente, os personagens mais sinistros e, simultaneamente, mais ditatoriais.

E o respectivo processo genético é, tal como na política, sempre idêntico. Jogando habilidosamente no descontentamento e até no descalabro reinantes, aparecem a prometer a redenção e o sucesso. Apelando aos sentimentos mais primários dos seus actuais ou futuros apoiantes, responsabilizam os seus sucessores por todos os males do mundo, às vezes mesmo inúmeros anos depois, e ainda que hajam, entretanto, feito o mesmo ou até pior do que aqueles. Escolhem como alvos unificadores das suas próprias hostes autênticos ódios de estimação, que constantemente verberam, desdenham e insultam. Sob a capa – e apenas sob a capa – de “chamarem os bois pelos nomes”, enlameiam tudo e todos que se lhes oponham ou – ao velho estilo salazarento do “se não estás por nós, estás contra nós!” – que simplesmente manifestem a mais leve reserva ou divergência.

E, sempre em nome de que todos os que, apesar de tudo, ainda os ousem criticar não passam de uns miseráveis oportunistas, golpistas e, sobretudo, conspiradores, este tipo de ditadores vai solidificando o seu próprio poder pessoal. Não raras vezes nada mais sabendo fazer na vida, o seu sonho último é ter um cargo unipessoal (não tendo que trabalhar em equipa e escolhendo apenas os yes menque mais lhes convenham), vitalício (as eleições são boas se e quando, pela manipulação e/ou pela violência, o respectivo resultado esteja antecipadamente garantido) e omnipotente (com todos os poderes concentrados em si).

Para assegurar a defesa da sua própria posição, quando o insulto e a mentira já não são suficientes – até porque as aleivosias sistemáticas, apesar de “venderem” muito na Comunicação Social, a certa altura também começam a cansar e a deixar de ser aquela “novidade” que vende jornais e telejornais – não hesitam em usar a ameaça e a coacção e, se necessário for, inclusive a própria agressão física, levadas a cabo por autênticas “guardas pretorianas”, compostas por marginais de toda a espécie, capazes de tudo a troco de uns cobres, de uns favores, de uns bilhetes ou até do alimentar de um vício. E que, sob a capa do “amor à causa” ou à bandeira, são capazes das maiores ignomínias.

A utilização de todos os meios, mesmo os mais sórdidos, para alcançar e manter o sucesso; a mentira, o insulto e a ameaça, de par com a manutenção a todo, mas mesmo a todo, o custo da posição alcançada; a incapacidade de fazer qualquer autocrítica e a persistente recusa em assumir quaisquer responsabilidades; o secar, tal como o eucalipto, de tudo o que o rodeia e possa ter o menor vislumbre de autonomia ou distanciamento… tudo isto se torna permanente. E, mais, são apresentados e justificados como reacções normais e até legítimas de quem se apregoa como corporizando a instituição e estando, por isso, a ser atacado pelos inimigos desta.

E o que, sobretudo em alturas como a presente, se impõe reflectir, é na curiosa, mas afinal bem significativa, circunstância de vermos serem repetidos e reproduzidos os aforismos, as práticas e os métodos próprios dos piores ditadores da História. E de percebermos como e porque é que é possível, sobretudo em épocas de crise e em situações de fraqueza ideológica e de princípios e de incumprimento consecutivo das promessas feitas pelos dirigentes tradicionais, estes ditadores chegarem ao poder pelo voto, e, às vezes, pelo voto maciço, daqueles que depois espezinham por completo.

Exagerado? Não, de todo! Veja-se: a defesa da “ordem”, da “estabilidade” e do “progresso” e a conquista de votos à conta dessas ilusões, a imposição de ideias como: “manda quem pode, obedece quem deve”, “se soubesses quanto custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida”, “todas as críticas feitas não passam de críticas maldosas ao serviço de interesses inconfessáveis”, “uma mentira mil vezes repetida acabará por se transformar em verdade”, “os fins justificam os meios”, e o crescente cair da máscara dos tiques e dos objectivos ditatoriais.

Onde os grandes interesses financeiros se impõem, o resultado é este.

E a grande questão é que, tal como o imperador Nero, estes personagens, sobretudo quando pressentem o fim próximo, não se importam de queimar e destruir a cidade que supostamente deveriam governar. E se não se lhes trava o passo a tempo, quando finalmente caírem, da mesma cidade não restam restarão senão escombros e cinzas.

António Garcia Pereira

4 comentários a “Anatomia de um ditador”

  1. Joao diz:

    Ja vi que o caminho para o socialismo deu nisto …
    O vale tudo com garantia constitutional .

  2. Lucília Pereira diz:

    Obrigado pela clareza das suas palavras. Subscrevo tudo o que disse. Só me resta a esperança, que a justiça tome medidas para travar este tipo de gente.

  3. Domingos Pereira diz:

    O método trumpaiano está a ganhar seguidores na Europa e no resto do mundo. aos mais variados níveis. Ditdores, sempre houve, mas agora com nova roupagem. O pateta em questão, é um pequeno tiranete, que cairá em breve. 0 pior são aqueles que fazem com que no mundo. exceptuando a Europa, as democracias se possam contar pelos dedos das mãos! ,e mesmo na Europa, os tais rapazolas vão fazendo o seu caminho.

  4. José Canteiro diz:

    Parabéns Garcia Pereira. Este te xto reflecte muito bem os motivos que nos trouxeram até aqui. Será que queremos saír da «ERA DOS NEGÓCIOS»?

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