Entre circo e crimes ninguém escapa (por Anabela Ferreira)

Violência Doméstica

A mulher não nasce mulher, faz-se mulher- Simone de Beauvoir

Não gosto de bater em mulheres. É um crime e não ganho nada com isso. Não gosto de acicatar ódios nas redes sociais nem de ir “à tromba“ ao Cid, ao Markl, à Maya ou à fofinha Carla Duarte que à porrada de um marido violento aconselha amor e mimos de mãe à mulher maltratada. Este é o assunto da polémica no circo que nunca desceu tão baixo quanto na espuma dos nossos dias. A toda a força o bom senso- como diz uma amiga minha dos Açores- “fodeu-se para azeite”.

Não gosto de entrar nas vendettas públicas. Tenho mais o que fazer e sobre o que escrever. Mas imponho-me uma obrigação para quem desrespeite as mulheres eu que venho de uma longa linhagem de bruxas. Numa sociedade patriarcal, falocêntrica e dominada pelas tradições e dogmas da Igreja ter mulheres subservientes, obedientes e escravas do sistema é o sintoma da grave doença que atinge quem dá luz ao mundo. Rasgaram-se soutiens, confundiram-se igualdade de oportunidades com assunção de um papel masculino mesclando-se ao ponto de ficarmos ainda mais confusas e de pensamento nublado. As que se masculinizam ou que se vendem ao dinheiro, poder e fama são ainda mais abjectas. O que serve na perfeição os interesses escondidos da mesma sociedade patriarcal, falocêntrica e religiosa.

Não sou dona da verdade, mas sou dona da minha verdade e orgulho-me de carregar a ancestralidade feminina das mulheres que deram a vida, foram violadas, foram maltratadas, foram escravizadas por homens e mesmo assim não os odiaram. Mas lutarem com toda a força da sua ânima pela reposição do seu papel e do seu lugar num sistema injusto para com as mulheres. Sou fruto de todas elas.

Talvez por metade de mim ter origem em bruxas que foram queimadas por saberem de mais, por se recusarem a servir e a obedecer aos seus amos, por pensarem sozinhas, e, por serem clarividentes ajudando outras mulheres a libertarem-se (aquelas que não sabiam que eram escravas), carrego a sabedoria dessas bruxas. Neste caso as prioridades são claras quando me pedem para escrever sobre o assunto.

Ando há mais de um ano dedicada a um projecto de escrever histórias reais de mulheres que foram maltratadas, abusadas, violadas pelos homens que as dizem amar. Entrevistei já algumas, e escrevi a primeira história. Escrevi um livro de contos sobre violência sexual e doméstica. Com ele pretendo a redenção dessas mulheres. Saberem que não estão sozinhas, que são ouvidas, que não vão ser de novo abandonadas, maltratadas nem humilhadas. Basta-lhes a vergonha que sentem e a solidão em que vivem. É-me um tema próximo e caro. Por isso tenho de não fazer um linchamento público mas expressar a minha agonia perto de vomitar tripas com o que ouvi.

Curiosamente também por ser da linha ascendente das bruxas, apaixonei-me há uns anos pelo tarôt. E como faço com qualquer assunto que me fascina, mergulho no seu estudo. Fez-me este estudo mergulhar num outro paralelo: a psique humana. Cheguei a Jung (discípulo de Freud) facilmente. Assim fiquei a perceber as cartas de tarot, os seus significados, as histórias que contam. Não são mais que isso. São histórias contadas sob a forma simbólica de desenhos e cores. São arquétipos que têm a história da vida do ser humano nos seus vários estádios, fases, momentos. A partir daqui constroem-se múltiplas ligações para o dia a dia e momentos da vida marcados no inconsciente colectivo da humanidade. Muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa.

O tarôt pode indicar caminhos e dar sugestões. Depende da intuição de quem “lê” o tal inconsciente colectivo. Poderia aqui continuar a escrever sobre o assunto, mas não é esse assunto que me traz à desconstrução das palavras obscenas, ridículas e maldosas no sentido em que não ajudam a libertação de nenhuma mulher vitima de abusos e maus tratos. Humilhada, só e com vergonha. E se algum papel didático essa criatura pudesse ter – vendida que está ao dinheiro, à fama e ao poder sobre os outros- lendo cartas de tarôt e fazendo de Cristo para com um criminoso quando até Cristo cascou os vendilhões do templo à vassourada.

Sou contra o código de Hamurábi – olho por olho, dente por dente – mas sou a favor de se ter consequências pela falta de respeito e crimes de violência seja psicológica seja física. Por causa desta situação inventei um baralho para as tarólogas manhosas desta vida (e são muitas) a fazer negócios escandalosos à custa da ingenuidade, solidão, vergonha, e também parvoíce de muita gente. Tirei uma carta do meu baralho para a taróloga Duarte e saiu-me a carta do “estúpido”. Veste de taróloga troglodita.

Sobre ela há muito a dizer, mas o que vejo – sorte para todos nós – é que a estupidez não é um direito humano.

Apetecia-me mandar a Carla Duarte ao meu canário para tratamentos, mas com artistas de circo deste calibre só a quero insultar devagarinho em modo budista!

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