TAP: o negócio da vergonha ou a vergonha do negócio

Na última semana, a TAP – matéria esta que o Governo, com ajudas várias, tem procurado varrer para baixo do tapete… – voltou a ser notícia, e pelas piores razões.

Por um lado, uma auditoria do Tribunal de Contas pôs a claro que a manobra de cosmética levada a cabo por António Costa e Pedro Marques, relativamente à transportadora aérea, não passou disso mesmo: duma mistificação, aliás bem cara, para deixar tudo afinal na mesma quanto ao criminoso processo de entrega da TAP, praticamente de graça, ao Sr. Neeleman e à sua então praticamente falida “Azul”.

Recorde-se desde logo que o negócio em causa foi conversado e ajustado com a preciosa intervenção de Lacerda Machado, o “melhor amigo” de António Costa, já envolvido na mais que obscura compra pela TAP da VEM, a empresa de manutenção da Varig, que foi, e é, o maior buraco financeiro (da ordem das centenas de milhões de euros) do Grupo TAP. E “melhor amigo” esse que foi de seguida premiado com a atribuição de um lugar na Administração da mesma TAP.

Depois, importa relembrar também que a recompra ao Sr. Neeleman e ao seu testa-de-ferro português Humberto Pedrosa (ambos formalmente associados na Atlantic Gateway) de 16% do capital social da TAP, passando assim a participação do Estado de 34% para 50%) foi trocada pela diminuição dos correspondentes direitos económicos do Estado (que passaram assim de 34% para… 5%!!??), enquanto à redução da participação da empresa do Sr. Neeleman (a referida Atlantic Gateway) no capital social, de 61% para 45%, passou a corresponder um aumento dos direitos económicos desses 61% para… 90%!

Grande negócio, portanto…

Acresce que, como é evidenciado num recente relatório do Tribunal de Contas, as coisas não ficaram por aqui. É que, ainda por cima, o Estado assumiu “maiores responsabilidades na capitalização e no financiamento da empresa”, agravando assim “a exposição às contingências futuras adversas”.

Dito de outro modo, os já esfarrapados bolsos dos contribuintes portugueses ficaram, em caso de incumprimento, sujeitos a acrescidos riscos financeiros que podem chegar aos 217,5 milhões de euros, sendo que é ainda e sempre o mesmo Tribunal de Contas que assinala que mesmo as “projecções até 2022 (dos riscos inerentes às referidas obrigações financeiras assumidas pelo Estado, nota nossa) são insuficientes” para se poder afirmar a sustentabilidade financeira da empresa e a dimensão financeira das entradas de dinheiro a que o Estado, pela mão do Governo do Sr. Costa, se vinculou.

Mas como se tudo isto já não bastasse, o que igualmente sucede é que, apesar de ter passado a dispor da maioria do capital (visto que tem 50%, a Atlantic Gateway 45% e os restantes 5% serão alegadamente para os trabalhadores), o Estado não tem controle estratégico algum sobre a TAP e nesta quem manda é o Sr. Neeleman e a sua Companhia Azul. A qual, aquando do processo de privatização levado a cabo pelo Governo de Passos Coelho, acumulava prejuízos da ordem de mais de 50 milhões de euros num semestre e fora já obrigada a devolver (por não os poder pagar) 20 dos cerca de 140 aviões da sua frota.

Ora, a partir da privatização, a TAP foi canibalizada em proveito da mesma Azul. Assim, e logo no início de 2016, a TAP assinou um contrato com a dita Azul nos termos do qual esta lhe forneceu, em regime de leasing e pelo “módico” preço de 400 milhões de euros, 17 aviões que se encontravam parados no Brasil.

Mais! Diversas aeronaves Airbus A330 da Azul foram mesmo cedidas à TAP pelo curto período que coincidiu com a sua manutenção ou revisão (cujos custos ficaram assim a cargo da TAP…).

E ao mesmo tempo, a TAP – através da adopção, não apenas do sistema de “code share” como também da chamada política das rotas combinadas – passou a servir cada vez mais de “ponta de lança” para abrir o caminho à Azul para novas rotas, onde esta, sozinha, normalmente nunca conseguiria entrar. Por exemplo, a TAP é a companhia aérea que mais voos tem entre o Brasil e a Europa e também tem um muito relevante número de voos entre o continente europeu e África, voos esses que já passaram – como logo sucedeu com o Lisboa/São Paulo (Viracopos) – ou vão passar a ser, inteiramente partilhados com a Azul ou até a ser efectuados apenas por esta, como, aliás, se encarregou de confirmar, em Setembro de 2017, o presidente da Azul John Rodgerson.

Mais ainda! Em Outubro de 2017 soube-se que, inclusive à revelia do seu sócio Humberto Pedrosa, David Neeleman e a respectiva Azul – em clara concorrência e em evidente prejuízo dos interesses próprios da TAP – negociaram com a transportadora alemã Condor um acordo de parceria abrindo à mesma Azul a possibilidade directa da realização de voos entre aeroportos europeus (que não Lisboa) e 22 destinos no Brasil.

Assim, ao mesmo tempo que, para garantir a execução desta política de “vampirização”, a TAP foi sendo ocupada, do ponto de vista dos quadros de topo, por elementos vindos da companhia brasileira, a começar pelo Presidente da TAP Antonoaldo Neves, a Azul passou a crescer financeiramente cada vez mais. Entre 2015 e 2016, tal crescimento foi de 6,6% e, em 2017, finalmente e à 4ª tentativa, a Azul conseguiu passar a ser uma empresa cotada em bolsa, numa operação que representou um encaixe de 456 milhões de euros.

Em suma, o sinistro processo de privatização da TAP – que foi levado a cabo pelo Governo Coelho/Portas, que privou o país de um recurso estratégico essencial e que possibilitou, como se vê, a sua canibalização e futura transformação numa mera transportadora regional – nãofoi revertido pelo actual Governo, mas antes maquilhado numa operação de verdadeira hipocrisia política e financeira, (apenas) aparentando que o Estado passava a ser o acionista maioritário e logo teria – que, como se vê, de todo nãotem – o controle estratégico da Empresa e possibilitaria que ela exercesse o importante papel, não apenas económico, mas sobretudo político e social, de salvaguarda e reforço da unidade nacional de um país com duas regiões autónomas geograficamente distintas e descontinuadas e uma diáspora de quase metade da população residente.

Mas, para além disso, significando também não só um óptimo negócio para quem não reunia, e não reúne, as condições legais para ser dono da TAP, como também novas e acrescidas responsabilidades financeiras para o Estado português, ou seja, para os contribuintes.

Por outro lado, tal como já acontecera no fim de semana de 7 e 8 de Abril deste ano – e aí unicamente porque, pasme-se, os pilotos se recusaram a voar em folgas e em férias –, neste passado fim de semana a TAP cancelou cerca de 70 voos, deixando os respectivos passageiros “dependurados” nos Aeroportos, sobretudo de Lisboa e Porto, e, muito em particular, os sempre sacrificados passageiros destinados às Regiões Autónomas.

Assim, esses clientes da Companhia, inclusive com crianças pequenas, tiveram de passar a primeira noite, de Sábado para Domingo, no chão do Aeroporto e de, na segunda noite, pagar do seu bolso um quarto de hotel (que a TAP depois veio invocar não ter conseguido encontrar, mas os passageiros conseguiram!…), tudo isto apenas com um vale de 6€ para o pequeno almoço e um de 16€ para o jantar.

Aos mesmos passageiros, os serviços da TAP nunca deram qualquer informação, explicação e muito menos um pedido de desculpa. Mas, pressionada pela Comunicação Social, a mesmíssima TAP – cujo Presidente, há uns tempos atrás, fez o número de circo de usar os meios de comunicação de bordo para se dirigir aos passageiros do avião em que voava – só balbuciou uma série de desculpas esfarrapadas, não apenas de todo insusceptíveis de justificar a onda de cancelamentos, como absolutamente indignas de qualquer companhia, mais ainda de uma que se pretende apresentar como de exemplo (mau tempo, obras do Aeroporto, greve em Marselha).

Tratou-se de mais uma demonstração evidente – tal como um dos Sindicatos do sector logo denunciou – da depauperação completa de recursos, de equipamentos e, sobretudo, de pessoal, em particular de pessoal técnico de que, não obstante todas as falaciosas promessas, a TAP continua a padecer.

E, perante o estonteante silêncio da entidade supervisora (a ANAC) e a completa ausência de efectivo controle público sobre a gestão da TAP, é um crescente “fartar vilanagem”. Sempre à custa dos mesmos, ou seja, dos passageiros, em particular os da Madeira e dos Açores, que não têm outra forma de viajar de e para as suas casas.

E com o Governo do Sr. Costa e os seus amigos a fingirem que reverteram a privatização e que o Estado retomou o controle da TAP.

Tenham vergonha!

António Garcia Pereira

Um comentário a “TAP: o negócio da vergonha ou a vergonha do negócio”

  1. Helayne Dayse de Castro Brandão diz:

    Sempre viajei pela TAP todas as vezes que viajei para a Europa,continuo a viajar ,no próximo dia 27 de julho mesmo tenho passagem minha e do meu neto comprada para Portugal. Mas acredito que será a última vez que viajarei por está companhia,o que sinto muito,pois no ano passado quando eu fiz está viagem com meu esposo em julho uma pessoa de nacassidades especiais,hoje falecido em fevereiro,sofremos varios constrangimentos,paguei por acentos na parte da frente,e fomos colocados atras em fila trpla,a onde para o meu marido ,uma pessoa de um metro e oitenta ,cento e dois quilos ficou impossibilitados de se locomover,foi horrivel,nao se alimentou,por ter se urinado e evacuado na poltrona ,e assim ficou ate o desenbarque.quando eu e minha filha conseguimos no banheiro da aeronave,limpam o e trocar sua roupa em minúsculo espaço. Fora as ignorância que tivemos de escutar da senhora aeromoça quando explicamos que ela poderia nós mudar de lugar,bem mais isto é passado ,entrei na justiça e em um mês fui resacida , só que a da humilhação e constrangimento,não recebemos até hoje uma palavra de desculpas.Agora no mês de maio viajei de novo ,na volta para o Brasil ,novamente a TAP aprontou com os passageiros,nos fez andar de ônibus uma distância enorme ,para nós embarcar em um avião branco ,que nem bandeira de Portugal e nome tap tinha , sem conforto,onde nada funcionava .E muito triste ,a cinqüenta anos viajo por esta companhia,e ver esta decadência. Torno a dizer sera a minha ultima viagem a europa pela TAP,so vou por ter comprado a passagem com antecedência. As próximas irei por outras companhias,que além de serem mais em conta ,não cobram as malas de porão. Ai está o meu desabafo.

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