EUtanásia

Um homem está deitado na cama do seu quarto numa aldeia da Galiza. Não mexe os braços, não mexe as pernas, só se ouve o som do próprio coração e uma ventania lá fora. Em frente, molduras com sangue dentro. O homem a nadar, o homem a voar, beijos do homem com um antigo amor, festas de aniversário, a vida. O homem só mexe a cabeça. Com a boca de pássaro viajante, segura uma caneta com que vai escrevendo um poema ou uma memória ou o próprio passado. Depois adormece, sonhando dentro dos sonhos.

Este homem são vários homens e mulheres e crianças que querem morrer. Este homem é Ramón Sampedro, interpretado por Javier Bardem no filme Mar Adentro. Um homem que passou metade da sua vida a tentar morrer de forma legal. A lutar pelo direito a ser auxiliado para uma morte que o libertasse da própria tragédia que o impelia ao voo de ir “daqui” para “lá”. Sem religião, sem ética profissional, sem decoro. Só a crença universal de que todos devemos poder morrer sem sofrimento. Um homem a querer morrer e a não conseguir. Um homem forçado a um mundo que não quer. Não por desprezo, mas por amor. Um homem que quer amar, morrendo.

Entre a descoberta do éter – com ela a possibilidade suprema da anestesia – e a sua utilização clínica passaram mais de três séculos. Mais de 300 anos de operações em que os pacientes se mantiveram acordados. A sofrer. A gritar. A rogar a Deus como absolvição. Milhões de pessoas foram operadas sem anestesia pela absurda ideia de que o Divino não permitia a adulteração do corpo. O mesmo para os transplantes do coração e restantes órgãos: eram tidos como pecados contra a Natureza, contra Deus.

Defender a morte assistida não é uma ideologia contra a vida; pelo contrário, é a única e mais humana forma de defesa da vida. Da vida decente, da vida cheia de beleza e sonhos e dignidade. Morrer como um passo mágico que nos liberte quando já nada nos liberta em vida. Ir para outro lugar. Para os religiosos, ir para um sítio maravilhoso, cheio de novas oportunidades místicas; para um não-religioso, a possibilidade única de ir para o nada. O nada é melhor do que a tortura diária de morrer no corpo a cada segundo.

Humanizar o paciente é dar-lhe liberdade de escolha sobre a sua vida e sobre a sua morte. Um médico, cumprindo o seu juramento de Hipócrates, não o faz só no sentido mais literal de “salvar vidas”; fá-lo também, porque é essa a sua natureza, num mundo muito mais abrangente de “salvar pessoas” – seja para manter o coração a pulsar, seja para o seu contrário. Um médico é um prestidigitador, um amigo, um salvador de consciências, um curador. Não há argumento maior para um médico do que aquele que, na sua alma, define a sua vontade de curar. De libertar o paciente da sua dor. Se os médicos não estão protegidos pela lei, que a lei mude. Ninguém quer matar ninguém.

Ninguém gosta da morte. Mas não é aceitável que se prolongue a dor de um familiar por egoísmo, por crenças religiosas, por medo, por indefinição, por cobardia. Há um filme sobre Jack Kevorkian, o “Doutor da Morte”, no qual, a certa altura, Jack rememora o que a mãe, doente terminal e cheia de ternura, lhe disse quando ele era criança:

“Imagina a tua pior dor de dentes. Agora imagina que essa pior dor de dentes é a pior dor de dentes do mundo. Agora imagina que tens essa pior dor de dentes do mundo em todos os teus ossos em todos os segundos da tua vida. É essa a minha dor.”

Pense no seu filho, na sua filha. Nos seus pais, num grande amigo. Num ídolo de infância. Em Jesus Cristo. Se uma destas pessoas estivesse sofrendo, sentindo centenas de dores de dentes por todos os ossos, pedindo-lhe que acabasse com o sofrimento, você acharia um crime matar estas pessoas ou o maior crime seria deixá-las vivas?

Na vez de ser proibida a eutanásia e vista como profana, auxiliar a morte dos nossos entes queridos que querem morrer deveria ser um lugar de liberdade. Um momento entre amigos e família. Com música, beijos, balões mágicos e dança. A morte como vida.

Ricardo Silveirinha

Um comentário a “EUtanásia”

  1. Santos Barão diz:

    Respeito, mas não concordo “VIDA TUDO, MORTE NADA”… Existe muito mais envolvido, que não pode ser refém de quaisquer filosofias!

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